Um curso de 10 semanas acompanhado de um programa de voluntariado ao longo da costa da África do Sul resultam na sua qualificação para virar instrutor de surf.

É uma tarde ensolarada na praia de Muizenberg, na Cidade do Cabo, e eu estou correndo pela areia com uma roupa de mergulho. A minha vontade é de deitar no chão e chorar por causa do calor e do cansaço, enquanto me esforço pra continuar indo em frente; mas o encorajamento do grupo me ajuda a terminar o treino antes de a gente correr até as ondas para começar uma aula de surf de duas horas.

Esse é o quinto dia de uma aventura de 10 semanas de surf na África do Sul, com a Ticket to Ride, uma agência inglesa que organiza férias de surf e acampamentos pelo mundo todo. Eu estou aqui para conhecer sua viagem mais longa, a qual oferece a chance de se qualificar como um instrutor de surf ao final.

“Algumas pessoas vêm só pela experiência, mas a maioria acaba se qualificando de qualquer forma”, diz Chris Bond, chefe de operações. “Tivemos novatos se qualificando – é incrível ver suas mudanças mentais e físicas ao longo de 10 semanas estando no mar todos os dias. Além disso, é uma ótima forma de conhecer a África do Sul”.

Depois de duas semanas na Cidade do Cabo, o grupo de 16 pessoas viajará para o leste ao longo da costa, com a água esquentando e o cenário mudando, e terminarão no norte de Durban dois meses depois. É uma rota que os fundadores da empresa, Linley Lewis e Will Hayler, fizeram mochilando sozinhos antes de entrarem na faculdade – e a recriaram como uma viagem em grupo, usando os melhores treinadores locais e acomodações para surfistas.

Além de surfar e treinar, temos tempo suficiente para explorar os lugares. Outra parte da viagem são os trabalhos comunitários com ONGs e caridades, temos dias dedicados a não fazer nada além de pintar salas de aula, ensinar inglês ou limpar as praias.

“Dar algo de volta é a essência do que fazemos”, diz Chris.

Praia de Muizenberg.

Muizenberg, com sua vibe surfista, praias de areias cristalinas, ondas longas e delicadas e montanhas como plano de fundo é o lugar perfeito para começar. Estamos ficando em um hostel de frente pra praia, um lugar divertido e vivo, com quartos compartilhados e individuais. Depois de uma tarde difícil nas ondas, nós voltamos ao terraço, abrimos uma cerveja, trocamos experiências sobre surf e jogamos sinuca.

Por ser uma viagem longa, você provavelmente imaginaria que apenas adolescentes estudando e bancados por pais ricos participariam. Mas o grupo é bem misto, as idades variam de 18 a 30 anos, e alguns têm trabalhado em dois empregos por meses para conseguir pagar o programa. Os ingleses estão em maioria, com alguns canadenses, holandesas e um cara de Dubai; e o grupo também conta com diferentes níveis: alguns já surfam há anos enquanto outros, como eu, praticamente nunca haviam ficado em pé em uma prancha antes. Muitos estão viajando antes ou depois da faculdade, outros só estão atrás de um descanso da vida cotidiana, como a Taha de Buckinghamshire, uma médica que está dando um tempo do mundo real. Alguns também planejam uma mudança de carreira – esperam poder trocar a vida no escritório por uma no mar.

“É uma mistura incrível de mochilão, voluntariado e surf – e o melhor é que você pode virar instrutor ao final”, diz Jennifer Snell, 20 anos, de Wiltshire; Jennifer combina uma vida no escritório com um trabalho como vendedora de peixe em Tesco, para conseguir juntar o dinheiro. “Temos liberdade o suficiente, mas ao mesmo tempo tudo já está organizado para você – então você consegue realmente focar no surf”.

Jane, na esquerda, indo pegar onda em Muizenberg.

No dia seguinte nós saímos cedo para a água novamente. Como sou novato, tive que praticar em cima da minha prancha na areia antes de entrar no mar. O instrutor é paciente e encorajador, e depois de várias tentativas falhas eu consigo ficar em pé e balançar até a praia. Há algumas placas alertando os surfistas de tubarões – e uma torre em cima da colina vigia a baía – mas dentro da água eu esqueço rapidamente os meus medos. O Chris, que surfa aqui há 23 anos, me assegura que só viu tubarões uma única vez, e ele não estava surfando; ele me diz que mais pessoas morrem tirando selfies (caindo de penhascos, sendo atropeladas por trens), ou por cocos caindo em suas cabeças, do que por ataques de tubarão.

A sensação de conseguir pegar uma onda é incrível – e eu já começo a entender porque algumas pessoas são tão viciadas em surfar.

Como ficamos uma semana ou mais em cada um dos sete destinos, conseguimos ter tempo para conhecer os lugares. Visitamos os pinguins em Boulders Beach e conhecemos o mercado local um dia. Escalar a Table Mountain e conhecer a vida noturna também está nos planos, assim como surfar nos lugares mais desafiadores da Cidade do Cabo, desde Long Beach até Kommetjie.

Jennifer Snell com as crianças do Waves For Change foundation.

Mas grande parte do programa é dedicado a trabalhar em projetos comunitários. Na Cidade do Cabo, trabalhamos com o Waves for Change – uma fundação criada por Tim Conibear, a qual dirige programas de conscientização sobre HIV e liderança juvenil nas cidades, usando o surf como uma plataforma para a educação.

Nós juntamos a criançada para um aquecimento antes deles pularem no mar para surfar. Parte do acordo é que as crianças devem ir pra escola, e frequentar aulas no centro do projeto a tarde.

“Essas crianças vêm das ruas, de gangues e de famílias destruídas”, explica Tim “Nós os ajudamos a ganhar confiança, a se sentir pertencentes e a aprender importantes lições de vida – e eles também ganham uma refeição. Tem que ser algo legal para que eles se interessem, e o surf tem isso”.

Nosso grupo voltará no dia seguinte para ajudar a pintar os containers que são usados como salas de aula.

Praia em Plettenberg Bay. Fotografia: Peter Unger/Getty Images

Infelizmente, eu não posso me dar ao luxo de participar nas dez semanas do programa, então na manhã seguinte eu me adiantei do grupo com o Chris e fomos conferir alguns dos outros lugares do itinerário. É uma bonita estrada até Plettenberg Bay, a próxima parada, e no caminho o grupo vai poder conhecer a maior ponte do mundo de onde se pula de bungee jump, em Tsitsikamma. ‘Plett’ tem uma vasta área de areia intocada; e a acomodação, Albergo for Backpackers, é um lugar ótimo para um braai (churrasco africano) a noite.

Mais ao longo da costa, Jeffreys Bay é uma meca do surf – plano de fundo do filme The Endless Summer (Alegria de Verão, em português), de Bruce Brown. É também o local onde o campeão de surf Mick Canning uma vez foi atacado por um tubarão, mas não vamos pensar nisso. Island Vibe, o hostel onde o grupo se hospedará, fica em um barranco com vista para o Kitchen Windows, um dos restaurantes mais famosos de J-Bay, e eu posso imaginar a diversão que o grupo terá aqui.

Plettenberg Bayalbergo for backpackers

Etienne Venter, treinador do time de surf da África do Sul, também trabalhará duro com eles. Treino de nado em piscinas locais, análise de vídeos com técnicas de surf, aulas de etiqueta do surf e práticas de primeiros socorros serão ensinados ao longo do tempo. “Esse será um ponto de mudança na viagem”, diz Etienne. “Eles vão começar a colocar em prática o que eles aprenderam até agora”.

“Também passaremos um tempo nas escolas locais daqui, ajudando com manutenção, com as aulas e com o Supertubes Surfing Foundations, um projeto de reciclagem administrado pela comunidade.

Mas já é hora de eu voltar pra casa, triste por não ter tempo de visitar os destinos mais remotos do itinerário, mas consciente de como estar no mar todos os dias por 10 semanas deve ter um profundo efeito em uma pessoa. À medida que o grupo se aventura para mais distante na costa, a paisagem mudará novamente, a dramática paisagem montanhosa se transformará em uma costa mais tropical, mais exuberante.

Island Vibe hostel, Jeffrey’s Bay

A cidade de Chintsa traz águas mais quentes, ondas mais vazias e a chance de visitar Safáris. Depois eles seguirão à Coffee Bay, em Transkei, onde a acomodação é no acampamento Coffee Shack, dirigido por Dave Malherbe, um dos surfistas mais bem sucedidos do país. Durban, a cidade do surf Sul-Africana e Ballito, a 45 minutos ao norte, completam a viagem.

Algumas semanas depois, de volta à Inglaterra, eu enviei um e-mail a Jennifer perguntando como foi o restante da viagem. Ela me contou que se qualificou como instrutora e agora está dando aulas no Ticket to Ride de Newquay no verão, torcendo para um dia conseguir trabalhar para algum instituto de caridade de surf ou de conservação do oceano.

Pegar ondas ao lado de golfinhos, a beleza de Transkei, visitar as famílias tradicionais Xosha, surfar na cidade natal do lendário Jordy Smith, fazer amigos para o resto da vida… Ela teve dificuldade em escolher apenas um ponto alto da viagem. “Eu simplesmente tive a melhor viagem da minha vida”, ela conclui.

Como participar?
A viagem é proporcionada pela agência Ticket to Ride e custa em torno de £5500.

 

Confira algumas fotos do programa:

Matéria retirada do site The Guardian e traduzida por Red Nose. Fotos retiradas do site The Guardian e Ticket to RIde.