DIY Skateparks ilegais podem ser encontrados em várias cidades, mas nenhum lugar é tão aberto à eles como Copenhague. O que está por trás de toda essa tolerância?

Um skatista no porto de Copenhague: a cidade consulta skatistas toda vez que vai redesenhar espaços públicos. Fotografia: PYMCA/UIG via Getty

DIY Skateparks: Do It Yourself, traduzido literalmente, significa ‘Faça você mesmo’. DIY Skateparks são pistas de skate feitas por amadores.

“Carros abandonados, traficantes e mendigos – não tinha mais nada aqui”, conta Balder Lehmann, 25 anos, profissional em construir pistas de skate. Ele está debaixo de uma ponte no norte de Copenhague: “Não era nem de longe a parte mais convidativa da cidade”, ele diz, explicando o por quê dos locais evitarem essa área.

Mas para Lehmann o lugar era perfeito. No natal passado, usando concreto, madeira e barras de aço, ele começou a construir uma pista de skate. Ao longo de alguns meses, ele e seus amigos construíram três conjuntos adjacentes de rampas no local.

Com seus quadros de madeira cheios de entulho e revestidos em 15 cm de concreto liso, a pista de skate de Lehmann é muito parecida com as que ele constrói para seus clientes, mas com uma exceção: é ilegal.

Lehmann nunca pediu permissão da Københavns Kommune, o conselho que é proprietário do espaço em que ele construiu. E talvez isso nem seja um problema – graças a abordagem liberal da cidade em relação ao desenvolvimento urbano e ao skate.

Dubbed Underbroen (“Debaixo da Ponte”), a construção de Lehmann é um ótimo exemplo de um DIY Skatepark – construído de forma rápida, barata e ilegal, muitas vezes em uma parte negligenciada da cidade, como um prédio abandonado. Reivindicar a cidade também é um dos objetivos: DIY Skateparks muitas vezes tentam reviver espaços urbanos que foram há muito tempo esquecidos, tornando-os assim mais ocupados, animados e seguros.

DIY Skateparks existem em várias cidades, não só em Copenhague. O conjunto de rampas e bowls construídos nos anos 90 embaixo da Burnside Bridge em Portland é considerado o primeiro de todos. Mas nenhuma cidade é tão cabeça aberta em relação a essas construções como a capital dinamarquesa.

Hullet (o Buraco) está programado para ser destruído para dar lugar a um conjunto de moradias. Fotografia: James Clasper

Um caso em destaque é o Hullet (“O Buraco”) – um profundo bowl de concreto construído em Copenhague cinco anos atrás. Sua criação é cheia de mitos. Em 2010, uma empresa de construção americana chamada Grindline foi contratada para construir um novo skatepark de concreto na cidade. A lenda diz que os construtores da companhia passaram sua perícia aos skatistas locais, que encontraram uma boa localização e começaram escavar.

Inevitavelmente, a atividade atraiu a atenção do conselho que ligou para um homem chamado William Frederiksen. Além de gerenciar o maior skatepark indoor de Copenhague, ele trabalha para o departamento de cultura do município como uma espécie de embaixador do skate. Frederiksen disse que seus colegas queriam saber por que os skatistas estavam cavando um buraco tão grande, e temiam que alguém pudesse cair nele.

Mas ao explicar o que estava acontecendo, o conselho mudou o tom. “Eles falaram ‘OK, nós amamos a idéia e queremos mantê-la – mas temos que pensar em algum tipo de acordo’” Frederiksen conta. Em vez de parar a construção, o conselho insistiu que na área fosse colocada uma cerca.

De acordo com Frederiksen, a cabeça aberta do Conselho a respeito do Hullet – e posteriormente à DIY Skateparks, como o Underbroen – reflete sua ampla visão para a cidade de Copenhague e o papel que o skate pode desempenhar. “Queremos que a cidade seja animada, barulhenta, ativa e atualizada – e estamos sempre pensando em maneiras diferentes de como usar seu espaço”, diz ele.

Uma medida do conselho é, ao redesenhar praças públicas e ruas, consultar os próprios skatistas – como Frederiksen -, para torná-las adequados para o skate. A tolerância de DIY Skateparks é outro reflexo de seu caráter.

Simon Strange é um dos adeptos dessa visão, ele é membro do social-democratas, partido de esquerda que controla o conselho. Eleito para a prefeitura há uma década, ele fez questão de um maior apoio ao skate – como, por exemplo, financiar CPH Open, uma competição anual de skate. Ele também aprova a expansão de DIY Skateparks.

“Você quer ter pessoas ativas e engajadas com a cidade”, Strange diz. “Mesmo que as pessoas mudem espaços públicos para seus próprios interesses, eles o fazem com amor e com energia positiva pois querem realmente criar algo.”

Particularmente, Strange elogia seu potencial regenerativo. “Muitas vezes eles estão em lugares que ninguém se importa, áreas que não recebem atenção, então eles estão criando algo do nada”, diz ele. “Mesmo que nem sempre seja completamente legal, às vezes você tem que olhar a cidade com os olhos de um cidadão”.

Underbroen (Deibaixo da Ponte) é uma parte deserta da cidade. Fotografia: James Clasper

Balder Lehmann concorda. “Poderíamos ter pedido permissão, mas o conselho poderia ter dito não”, diz ele “E então, o que teríamos feito?” Eventualmente, o Skatepark chamou a atenção do departamento técnico e ambiental da cidade – e de Anders Melamies em particular, quem lidera a divisão responsável pelas ruas e parques no norte de Copenhague.

Estritamente falando, Melamies diz, ele deveria ter chamado as escavadeiras. Mas no ano passado o departamento técnico e ambiental adotou uma estratégia conhecida como Fælleskab København (co-criação de Copenhague). Sua visão é desenvolver a capital em colaboração com qualquer um que a use – residentes e turistas igualmente – transformá-la em uma “cidade viva … uma cidade com bordas”.

Melamies diz que seu trabalho é encontrar um caminho “para criar espaço para os skatistas de uma forma que não interfira com o uso de outros cidadãos da cidade”. Com o Underbroen ele decidiu que tinha três opções: “Nós poderíamos derrubá-lo; poderíamos deixá-lo lá, fechar os olhos e esperar que nada acontecesse; ou poderíamos entrar em contato com as pessoas que o utilizam e tentar encontrar uma solução duradoura “.

Ele escolheu a terceira opção. “Se nós podemos explicar quais são os nossos problemas e termos um diálogo, então podemos resolvê-los e legalizar o que eles já construíram”, ele diz. “É uma criação impressionante e muito tempo foi gasto nela. Eu odiaria ter que destruí-la”.

Porém, a mente aberta da cidade em relação aos DIY Skateparks não garante sua sobrevivência. Um skatepark construído em um prédio abandonado nos arredores de Christiania, a famosa Cidade Livre, está com os seus dias contados. Ainda este ano o prédio será transformado em um restaurante.

Os dias de Hullet aparentemente também estão acabando. Em abril, a cidade decidiu transformar a área em um “distrito residencial verde”, com casas que abrigam 69 famílias para serem construídas em 2019. Ninguém mencionou o Hullet.

Daniel Mathew leciona na Academy for Umtamed Creativity – uma escola que procura motivar adolescentes a reentrar na educação formal. Ele ajudou alunos a construírem três DIY Skateparks, mas insiste em obter permissão prévia dos proprietários das terras. Ele considera uma pena que as pessoas que construíram o Hullet não tenham conseguido uma autorização.

“Eles nunca nem começaram a ter uma conversa com os caras que possuem o espaço e agora terá que ser destruído”, ele diz. “Em dois anos, acabou. É uma pista de skate perfeita e poderia ter ficado lá por 10, 15 anos. Mas essa é a essência do DIY – tudo é efêmero”.

Lehman terminou de construir o Underbroen no verão. Tendo gastado 50.000 DKK (R$ 23.000,00), ele espera conseguir uma permissão retrospectiva – mas está preparado para remover-lo caso não consiga.

“Esse é o jogo. Se for destruído, paciência”, ele diz. “Mas se realmente for, pode acreditar que alguma outra coisa será construída – porque tem muita gente querendo construir coisas novas”.

Matéria e fotos retiradas do site The Guardian e traduzida por Red Nose.